segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O primeiro passo: a decisão.


O que é o Caminho de Santiago de Compostela?

Era 1989. Eu, com 11 anos de idade, voltando das férias nos EUA com minha família, ouço pela primeira vez o nome ‘Santiago de Compostela’.

Duas senhoras sentadas ao meu lado conversavam sobre o livro ‘Diário de um Mago’, de Paulo Coelho, e assim fizeram durante, pelo menos, 4 das 9 horas do vôo de Nova York à São Paulo.

As duas pretendiam se lançar numa peregrinação de 800 km, saindo do sul da França até Santiago.

Na época, não conseguí entender porque alguém se prestaria a isso, caminhar 800 km, para qualquer lugar que não fosse a Disney. Mesmo as enormes filas que encontrei por lá me fizeram repensar se aquilo tudo valia a pena ou não.

Algum tempo depois, tentei ler o ‘Diário de um Mago’. Devo admitir que a opinião de meu Pai pesou bastante para que eu já iniciasse o livro achando que o autor era um ‘charlatão imbecil’ e ‘que fez o caminho de carro’.

De alguma forma o livro despertou em mim a curiosidade por coisas sagradas.

Objetos, rituais, coisas que procuram estabelecem o contato do homem com o divino. Ou aquilo que está próximo de Deus.

Apesar de (mal)criado numa família e em colégios que se dizem ‘católicos’, nunca fui muito religioso.

Fiz questão de esquecer todas as rezas ensinadas no catecismo. Mantive o ‘Pai Nosso’ pois, no Brasil, até antes ou depois de pelada de futebol se reza.

No Brasil, usa-se Deus para tudo, seja para elogiar nossas riquesas naturais, ou para condenar a nossa miséria.

Desde cedo aprendi que Deus nada tem haver com isso.

Fui crescendo e cada vez mais Deus tornou-se algo distante para mim.

Missa, igreja, só em casamentos, missas de sétimo dia ou algo do tipo.

Ví o crescimento dessas ‘novas’ religiões no Brasil, e, ainda hoje, devo dizer que tenho certa desconfiança em ‘crentes’, ‘evangélicos’, e suas variações.

Nesse tempo todo, cresci, com todos os percalços possíveis, me formei, comecei e terminei alguns relacionamentos, iniciei e encerrei carreiras, conheci outros lugares, outras culturas, fiz parte de outras famílias, comecei e terminei uma análise que durou 7 anos.

Nada disso me fez perder ou preencher um pouco do enorme vazio que tenho dentro de mim.

Em 2007, depois de sair de mais um relacionamento, vi-me novamente frente ao Caminho de Santiago.

Completando 30 anos, jovem promissor em carreira numa multinacional no Rio de Janeiro, sentia-me no topo do mundo, mas a frustação de mais um relacionamento desfeito me deixava triste.

Numa dessas viagens que a gente faz para colocar tudo para trás, encontrei uma pessoa que trouxe de volta minha curiosidade e determinação de ir à Santiago de Compostela. Num daqueles rompantes de paixão, laço-me para a Europa, numa viagem incrível, com o final em Santiago de Compostela.

Minha primeira impressão de Santiago foi mágica. Chegando à praça do Obradoiro, escuto o som de gaitas de fole, à luz do sol se pondo, peregrinos chegando de suas caminhadas, nos rostos expressões que não seria capaz de descrever.

Alí eu entendi que o segredo não está no fim, não está na cidade em si, mas sim no Caminho.

E percebi, ao olhar cada um dos peregrinos que davam entrada na praça, que aquela seria também a minha forma de me reaproximar de Deus.

Preparo-me física e psicológicamente para esse reencontro. Certamente, vou precisar, pois levarei comigo, 30 anos, e um pedacinho de todos aqueles que fizeram, fazem e farão parte da minha vida.

Ultreia y suseia!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 


Templates Novo Blogger 2008